quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Internacional da Poesia

A poesia nasceu ligada à música e a sua função primordial era perpetuar na memória coletiva os factos relevantes e os valores que organizavam a vida de uma comunidade.
Decorridos vinte e cinco anos sobre a morte de José Afonso, prestamos aqui uma homenagem ao poeta que, como nos tempos iniciais, ligou a palavra à música, deixando gravados na nossa memória os valores que nortearam a sua vida.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Canto em Periplus

Amélia Muge em Faro

Amélia Muge e Michales Loukovicas estiveram ontem na Biblioteca Municipal de Faro, para nos falarem do(s) caminho(s) que percorreram até à apresentação do novo álbum Periplus.
Contaram histórias de encontros e de descobertas e mostraram como a "viagem", o distanciamento no tempo e no espaço, nos pode conduzir ao que há de mais genuíno e transversal na tradição musical do mundo. E como isso tem pouco a ver com fronteiras e nacionalismos.
O resultado é um pouco de muitas coisas, desde a canção de embalar até às pragas algarvias.
Periplus é um trabalho todo feito de memórias, afetos e poesia, como se pode ler nestes versos que o integram:

Este canto
Tem a rota dos perfumes
Da pedra pão, dos metais
Do ouro e prata, dos sais

Tem dos deuses os segredos
Tem minotauros de medos
E tem a idade do Egeu

Tem um naufrágio de estrelas
Tem prantos de vida e morte
É de todos e é só teu


Texto: MV

quarta-feira, 14 de março de 2012

Akira Yoshizawa: 101 anos

Foto de Robin Macey (New York Times)

Akira Yoshizawa, grande mestre japonês de origâmi (dobragem de papel para obter animais, flores…), nasceu em Kaminokawa (Japão), no dia 14 de março de 1911. É considerado o pai do origâmi moderno, pelo recurso ao papel humedecido (técnica “wet folding”), que, ao permitir criar formas mais volumosas e curvilíneas, impulsionou a criação artística e deu um importante contributo para a dobragem de papel ascender à categoria de arte. Morreu em 2005, tendo legado ao mundo cerca de 50 mil modelos.

O próprio Akira Yoshizawa executa um cisne, em:

http://www.youtube.com/watch?v=58GdBN4NWz8&feature=player_embedded Yoshizawa

quinta-feira, 8 de março de 2012

8 de março: Dia Internacional da Mulher

O Dia Internacional da Mulher, instituído pelas Nações Unidas, visa celebrar o papel da mulher na sociedade.


A data está associada à reivindicação das operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque, em 8 março de 1857. Como estas recebiam menos de um terço do salário dos homens e trabalhavam, diariamente, mais de 16 horas, entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem um horário de 10 horas. Como foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, cerca de 130 operárias morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres, realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas operárias, comemorar, em 8 de março, o "Dia Internacional da Mulher ".

quarta-feira, 7 de março de 2012

Profs … a culpa é deles!

Neste momento, é óbvio para todos que a culpa do estado a que chegou o ensino (sem querer apontar dedos) é dos professores. Só pode ser deles, aliás. Os alunos estão lá a contragosto, por isso não contam.

O ministério muda quase todos os anos, por isso conta ainda menos. Os únicos que se mantêm tempo suficiente no sistema são os professores. Pelo menos os que vão conseguindo escapar com vida.

É evidente que a culpa é deles. E, ao contrário do que costuma acontecer nesta coluna, esta não é uma acusação gratuita. Há razões objectivas para que os culpados sejam os professores.

Reparem: quando falamos de professores, estamos a falar de pessoas que escolheram uma profissão em que ganham mal, não sabem onde vão ser colocados no ano seguinte e todos os dias arriscam levar um banano de um aluno ou de qualquer um dos seus familiares.

O que é que esta gente pode ensinar às nossas crianças? Se eles possuíssem algum tipo de sabedoria, tê-Ia-iam usado em proveito próprio. É sensato entregar a educação dos nossos filhos a pessoas com esta capacidade de discernimento? Parece-me claro que não.

A menos que não se trate de falta de juízo mas sim de amor ao sofrimento. O que não posso dizer que me deixe mais tranquilo. Esta gente opta por passar a vida a andar de terra em terra, a fazer contas ao dinheiro e a ensinar o Teorema de Pitágoras a delinquentes que lhes querem bater. Sem nenhum desprimor para com as depravações sexuais -até porque sofro de quase todas -, não sei se o Ministério da Educação devia incentivar este contacto entre crianças e adultos masoquistas.

Ser professor, hoje, não é uma vocação; é uma perversão.

Antigamente, havia as escolas C+S; hoje, caminhamos para o modelo de escola S/M. Havia os professores sádicos, que espancavam alunos; agora o há os professores masoquistas, que são espancados por eles. Tomando sempre novas qualidades, este mundo.

Eu digo-vos que grupo de pessoas produzia excelentes professores: o povo cigano. Já estão habituados ao nomadismo e têm fama de se desenvencilhar bem das escaramuças. Queria ver quantos papás fanfarrões dos subúrbios iam pedir explicações a estes professores. Um cigano em cada escola, é a minha proposta.

Já em relação a estes professores que têm sido agredidos, tenho menos esperança. Gente que ensina selvagens filhos de selvagens e, depois de ser agredida, não sabe guiar a polícia até à árvore em que os agressores vivem, claramente, não está preparada para o mundo.

Pereira Ricardo Araújo in Visão

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Presto a minha homenagem



Num entardecer de Agosto, com a lua cheia nascida e destacada no azul do céu, encontrámo-nos no areal da praia de Faro.

Éramos cinco mulheres reformadas da mesma profissão – o ensino.

As conversas de praia são agradáveis quando nos achamos entre amigos de longa data e o tempo ameno nos convida à nostalgia, levando-nos a vasculhar recordações e a acariciar os momentos que se foram…

O sol punha-se no horizonte!

Hoje, bem diferente de ontem, mas sempre com a sua singularidade…Amanhã não será como hoje e nem será como foi ontem!

Assim decorre a vida humana. O presente diferente do passado, com o tempo a desfilar, correndo numa “passerelle”.

Recuamos a 1956 com as recordações da Ofélia que saiu do Magistério Primário de Faro para a escola de Corte Pequena, Odeleite, Castro Marim.

Levava a cabeça cheia de sonhos, o coração cheio de juventude…mas esbarrou com inesperadas dificuldades.

Para chegar à escola apanhava o comboio até Vila Real de Santo António, tomava a camioneta (um machibombo) até ao Azinhal, onde esperava por um camionista que, a troco de umas moedas, a transportava na cabine, ao lado dele, até Corte Pequena. Quando ele não aparecia procurava o rapaz que fazia a distribuição do correio pelos lugarejos, montado num burro. Nesse dia ele ia a pé.

Na escola de Alta Mora, Odeleite, relativamente perto de Corte Pequena exercia uma colega a quem tinham emprestado uma bicicleta. O caminho era longo, passavam um ribeiro e levavam muita carga. Uma montava na bicicleta, parava ao fim de 3 ou 4 quilómetros, deixava o transporte e seguia a pé com a bagagem. Iam-se substituindo para facilitar a longa caminhada.

A escola da Ofélia havia sido construída pela população e tinha casa para a professora – duas divisões e uma cozinha com local para utilizar lenha.

Emprestaram-lhe uma cama de ferro com colchão de carepa, já muito moída, e um candeeiro a petróleo. Com caixotes de sabão, que eram de madeira, improvisou o mobiliário mais necessário. Dois caixotes, um por cima do outro, faziam de mesa de refeições, um outro perto da cama, servia para colocar uma vela.

A roupa era pendurada numa corda presa em dois pregos.

Numa venda que vendia de tudo foi completando as suas necessidades – um cântaro para ir buscar água, panelas, louças, copos…e um balde para as necessidades fisiológicas.

Não existiam infra-estruturas.

A habitação não tinha casa de banho. Tudo era despejado numa estrumeira ao ar livre. O banho era dado na cozinha, lavando o corpo a prestações, com água fria.

Aprendeu a acender lenha, que lhe ofereciam, para cozer os ingredientes para a sopa esmagando-os depois com o garfo, fritava uns ovinhos, umas batatas, rodelas de chouriço e pouco mais.

Uma vez por outra, mães de alunos ofereciam um coelho ou um frango já depenado. Perto do Natal aparecia carne de porco, banha, chouriços, toucinho…

Numa ribeira que transbordava no Inverno, impedindo o acesso à escola, uma mulher lavava-lhe a roupa.

As crianças andavam quilómetros para chegar à escola e muitas vinham descalças. Traziam a saca de serapilheira com a pedra e o almoço – um naco de pão, azeitonas, uma fatia de toucinho…

Leccionava as chamadas 4 classes a 40 crianças. Como as carteiras não chegavam, pedras trazidas da rua serviam de bancos.

Durante dois anos trabalhou nessa escola.

Casou no 1º ano e nasceu-lhe uma filha no 2º, beneficiando de 15 dias de licença de parto. A mãe foi viver com ela deixando o marido sozinho.

Só ia a casa pelo Natal e Páscoa.

Os habitantes cedo se habituaram a recorrer à professora para esta lhes ler ou escrever uma carta, para um conselho sobre uma dor de cabeça ou de barriga e até para ajudar no tratamento de feridas. Os noticiários da Emissora Nacional passaram a ser ouvidos em grupo, através do rádio da mestra. Era socorrista, escriturária e conselheira.

A colega de Alta Mora ia passar o fim-de-semana com a Ofélia e a mãe.

A região era fria e a casa não as protegia. Numa noite gelada um vizinho levou-lhes um fogareiro com brasas e passou o serão com elas.

A colega Ofélia ainda contou que em 1958, colocada na escola de Pechão/ Olhão, teve de alugar um quarto interior numa casa que era armazém de caixões. Não havia mais nada, era velha tendo a porta e as janelas desengonçadas. A filha, com 2 anos, dormia na gaveta do guarda fato e à noite os ratos passeavam pela casa.

A Maria do Céu relembrou a sua estadia na escola da Patã/ Albufeira, a partir de 1960.

Ia de automotora Faro/Patã e o resto do percurso era a pé, atravessando hortas. Numa delas era atacada por gansos bravos. Andava sempre munida com uma enorme sombrinha que lhe servia de protecção para o sol, para a chuva e para os gansos.

Levava almoço de casa, aquecia a sopa numa lamparina de álcool, comia fruta.

A escola era velha com pouco material para o ensino. O quadro era de madeira pintada com tinta preta baça, gasta com o uso.

A Joana recordou que a automotora que partia de Faro, vinda de Lagos, ia enchendo de professoras nos apeadeiros Portas do Mar, S. Francisco, Bom João e despejava-as a partir de Olhão até à Conceição de Tavira.

Eram viagens/convívio de ida e volta com diferentes percursos após a saída das estações. Umas iam a pé longos quilómetros, outras de bicicleta a pedal ou a motor e outras tinham a sorte de ter a escola muito perto.

O horário de sábado era aproveitado para a limpeza da escola. Saíam mais cedo dos locais de trabalho, apanhavam uma camioneta, desciam em Alfandanga e dirigiam-

-se pela estrada até à estação da Fuzeta.

Em 1973 a Fátima recebe alvará para trabalhar no Areal Gordo/Faro. A casa/escola tinha uma sala de aula com boas janelas e um cubículo que dava para uma horta. Nesse espaço cabiam meia dúzia de carteiras para 18 alunos. O chão era de terra batida, sem janela, sem poder fechar a porta, sem ardósia, sem água nem luz, sem casa de banho, sem espaço de recreio…e sem contínua.

Num alpendre anexo, a C.M.F. teve a gentileza de mandar fazer um resguardo privado para as três professoras se aliviarem…Dentro do alpendre construíram um poial e num dos cantos, mesmo ao canto, fixaram um “penico” sem fundo. Como a posição possível era de cócoras, não havia rabo que, ali colocado, conseguisse acertar no buraco!

Já escurecia!

Levantámo-nos. Havíamos partilhado dissabores do passado com alegria…

Relatar mais para quê?

Julgo que a missão de todos é prestar homenagem às professoras do ensino primário sofredoras, no anonimato, que iniciaram as suas funções de coração aberto e sentiram na pele o abandono, maltratadas pelo destino, magoadas, desapontadas…

Nestas MULHERES/PROFESSORAS o bom senso resistiu ao delírio de uma vida de sofrimento.

A reflexão dominou a paixão de serem educadoras a tempo inteiro.

Presto a minha homenagem a todas elas!!!!!!!!!!!!

Lina Vedes – 18 de Agosto de 2011